
  IRMO NEGRO
    Walcyr Carrasco
    
    
    Ao Padre Joo Lus
    
    Antes de comear minha histria, fao questo de contar. Ah, como eu queria ter um irmo! Um irmo para ser meu amigo! Para me fazer companhia. Como seria bom! Sou filho nico. Ah, como um irmo me fazia falta! Quando era bem pequeno, imaginava:
  Ele vai chegar no Natal! 
Pedia:
  Quero um irmo de presente!
    Minha me ria. Desconversava. Mas, com o tempo, parou de sorrir quando eu falava. Se eu tocava no assunto, ficava triste. Era horrvel ver minha me triste de repente, sem saber o motivo! Mais tarde descobri o motivo. Ela tambm queria que eu tivesse um irmo! Mas no conseguia ter mais filhos! Foi a muitos mdicos. Tentou vrios tratamentos. Nenhum deu certo. Finalmente descobriu a verdade. Havia um problema. Nunca comentou comigo. Foi meu pai quem me explicou tudo. Um dia me chamou para conversar:
     Leo, voc precisa saber. Sua me no pode ter mais filhos.
Que susto! Quis saber o motivo. Ele explicou:
    	 Ela teve um pequeno tumor no tero. No era grave, mas ela demorou a descobrir. Foi fcil de tratar, e felizmente no teve piores conseqncias. Mas nunca mais vai conseguir ficar grvida. Sei que voc queria muito ter um irmo, filho.  uma pena.
    S ento entendi a tristeza de mame. Nunca mais toquei no assunto com ela. Resolvi me conformar.
    Ser filho nico tem suas vantagens. Sempre tive festas superlegais nos meus aniversrios, por exemplo. Ao contrrio de muitos colegas de classe, que ganhavam s um bolinho, e olhe l. Eu, no! Minhas festas tinham bolo, brigadeiro e refrigerante para toda a turma.
    E os presentes? Ganhava mais presentes do que a maioria dos meus vizinhos! No s no aniversrio! Presente l em casa nunca teve data. Volta e meia meu pai me trazia um carrinho, uma bola, um saquinho de bolinhas de gude. Fui o primeiro garoto da rua a ganhar videogame. Tive tambm a primeira bicicleta. Minha av, quando visita a gente, at reclama:
	Vocs mimam demais esse menino! Mas para dizer a verdade...
    Apesar dos presentes, das festas e de um milho de vantagens, se eu pudesse escolher, no queria ser filho nico. De jeito nenhum. Meus pais trabalham fora o dia inteiro. Passo muito tempo sozinho. Seria timo ter um amigo dentro de casa. Um companheiro de todas as horas. Preferia ter um irmo a todos os videogames do mundo! Mas, se no havia chance, o que fazer?
    Tentei esquecer o sonho de ter um irmo. Como disse, resolvi me conformar!
    Aprendi a me distrair com a televiso e os jogos eletrnicos. A ler, principalmente. Gosto de ler porque, atravs de um bom livro, a gente voa com a imaginao! Visita lugares diferentes. Conhece pessoas de todos os tipos. At descobre como entender a cabea dos outros que, para falar a verdade, s vezes  muito complicada!
    J nem pensava mais no assunto. A vontade de ter um irmo era como a marca de uma cicatriz. A gente sabe que est l. Mas no fica cutucando o tempo todo.
    Um dia, tudo mudou. Minha vida sofreu uma reviravolta!
    A histria comeou com uma carta. Foi entregue quando eu estava sozinho em casa. Destinatria: minha me, Edith. Examinei o envelope. Vinha da Bahia. Que estranho! Nunca pensei que a minha me conhecesse algum por aquelas bandas. Logo que ela e meu pai chegaram do servio, avisei:
     Chegou uma carta. Est na estante da sala.
    Mame ficou surpresa. Carta? De quem? Olhou o envelope, surpresa.
 No conheo a remetente.
 Que esquisito!  surpreendeu-se papai.
Ela ainda revirou a carta nas mos, preocupada.
	Tenho medo que seja m notcia. Impaciente, papai resmungou:
    	 melhor abrir de uma vez. Se for m notcia,  bom saber logo.
    Mame suspirou. Rasgou o envelope. Mal comeou a ler, seus olhos se encheram de lgrimas.
	Que foi, Edith?  perguntou meu pai.
    Ela abanou a cabea, soluando. Estendeu a carta. Ele leu, muito srio. Alguma coisa muito grave estava acontecendo! Meu pai pensou durante algum tempo. Finalmente, disse:
	 melhor voc ir at l.
    Olhei os dois, curioso. Minha me enxugou as lgrimas. Explicou:
    	Ah, Leo, meu filho, estou de corao partido! Minha irm morreu.
Levei um susto. Irm? Mame nunca teve irm!
	Como assim? Eu s conheo o tio Ernni!
    Meu pai pegou na mo dela, fez um carinho de leve. Mame suspirou fundo, como se tivesse uma dor cravada dentro do peito. Contou toda a histria da tia que nunca conheci. Tudo aconteceu antes de mame vir para So Paulo, estudar, encontrar um emprego e conhecer papai.
    A famlia de mame morava no interior da Bahia. Sua irm, Edna, era quatro anos mais nova que ela. Sempre tivera uma personalidade diferente. Era inquieta. Falava em conhecer o mundo. Viver aventuras. Minha me, pelo contrrio, era tmida. Vivia fechada em casa. As brigas entre meu av, muito rigoroso, e a filha menor eram interminveis, segundo contou minha me.
    Quando cresceu, tia Edna fugiu com um rapaz que ningum conhecia. Nem sabiam quem era. Seja dita a verdade. Meu av era muito antiquado. At proibia as filhas de irem ao cinema com os amigos. Mas tia Edna namorava escondido! Segundo souberam mais tarde, ela foi vista com uma turma de motoqueiros. Rapazes e moas que vieram para um festival de rock que aconteceu numa represa da regio. Acamparam perto da cidade. O namorado devia ser algum dos motoqueiros. Mas conhecer, ningum conheceu.
    Durante muitos anos, mame no teve notcias da irm. s vezes chorava, pensando no que podia ter acontecido. S depois da morte do meu av, ela descobriu a verdade. Remexendo seus guardados, encontrou um mao de cartas escritas por Edna. Envelopes destinados a ela, ao irmo Ernni, ao meu av e  minha av. Nunca tinham sido abertos. Meu av os escondera todo aquele tempo!
    Minha me chorou muito ao ler aquelas cartas amareladas. Soube que tia Edna fora morar em uma praia. Tivera um filho, Srgio. Mais novo que eu!  medida que foi lendo as cartas, mame notou que se tornavam cada vez mais tristes. Chorosas. Tia Edna reclamava da falta de respostas. Achava que ningum mais queria falar com ela! Na ltima, tia Edna avisava: no escreveria mais, a no ser que dessem notcias.
    	Seu av era muito conservador. Nunca perdoou a fuga de minha irm. Por isso, no nos entregou a correspondncia.
    Graas s cartas, minha me descobriu o endereo de tia Edna. Era uma pequena vila de pescadores. Escreveu a ela, enviando nosso endereo  o mesmo em que vivo agora. Tia Edna s respondeu muito tempo depois. A carta se extraviara, pois ela e o tal rapaz tinham se separado. Estava morando em Salvador, na Bahia, sozinha com o filho.
    Nunca entrou em detalhes sobre sua vida. Depois de muito tempo sem notcias uma da outra, os laos entre as irms se tornaram muito frgeis.
    	Eu fiquei sem jeito de perguntar se ela passava dificuldades!  explicou mame.  Esperei, achando que um dia ela me contaria tudo.
    A vida de ambas era muito diferente uma da outra, pelo que mame percebeu. O tempo, a distncia impediam a antiga intimidade. Mame planejou ir  Bahia. Falar com a irm olhando em seus olhos. Abraar. S ento tudo voltaria a ser como antes!
    Mame nunca pde ir  Bahia. Acabara de arrumar um novo emprego. Teria que esperar pelas frias. Mais tarde, ocorreram outros problemas, e a viagem foi sendo adiada. Tia Edna no quis vir a So Paulo, apesar dos insistentes convites de mame e de tio Ernni. Quiseram at pagar a passagem. Orgulhosa, ela recusou. Sua vida, para mame, era um mistrio. Demorava para responder s cartas. Passaram a se corresponder apenas uma ou duas vezes por ano, para no perder o contato. Muitas vezes, minha me ficava preocupada com a situao financeira de tia Edna. Chegou a oferecer ajuda, se ela necessitasse, mas minha tia nunca aceitou.
    	Foi terrvel, Leo, porque eu sabia, no fundo do meu corao, que ela estava passando por grandes dificuldades. Talvez nem tivesse o que comer!
    Finalmente, chegara a carta que mame tinha nas mos. Fora enviada por uma vizinha da tia. A notcia no podia ser pior.
    	Minha irm morreu, filho. Morreu!  disse mame, chorando.
    Tia Edna falecera h quatro semanas. Ningum sabia do pai de Serginho. Na casa, no encontraram nem o endereo de sua famlia. Alis, nem a prpria tia Edna sabia. Meu primo, seu filho, estava abandonado nas ruas, comendo aqui e ali, dependendo da caridade alheia. Haviam pensado em coloc-lo num orfanato. Mas a vizinha sabia que tia Edna tinha uma irm em So Paulo. Entrou na casa e vasculhou as gavetas at descobrir nosso endereo. Escreveu a carta, pedindo ajuda. O menino no podia continuar nas ruas!
Minha me no teve dvidas.
	Vou buscar o menino.  o mnimo que posso fazer. Meu pai concordou imediatamente. Resolveu comprar uma passagem de avio.
    	Amanh mesmo voc vai para Salvador. Eu abro um credirio, e voc volta com o garoto.
 Ele vai morar com a gente?  perguntei, surpreso.
 Sem dvida  disse meu pai.
    	Sua av est muito velha para criar um neto  completou mame.  E meu irmo, Ernni,  solteiro. Nem tem como criar um menino naquele apartamento to pequeno.
    Pela primeira vez, depois da carta, mame sorriu. Um sorriso misturado com a tristeza pela perda da irm.
    	Seu primo ser como um irmo para voc. Voc sempre quis ter um irmo, no ?
    Um irmo! Senti meu corao bater mais depressa. Meu pai explicou:
     Voc vai estranhar no incio. Vai ter de dividir seu quarto, suas coisas. Quem sabe at os brinquedos. Mas pense na situao de seu primo, sozinho no mundo.
     Nem pense nisso, pai!  respondi.  Acha que quero ver meu primo morando na rua?
    A comecei a fazer um monte de perguntas: a idade dele, se gostava de futebol. Tudo! Minha me no sabia responder:
    	Eu e sua tia nos escrevamos muito pouco.  uma pena. No sei como morreu; se estava doente, se precisava de ajuda, no sei nada, nada da vida dela!
    Em seguida, comeou a chorar de novo. Eu a abracei, bem carinhoso, do jeito que ela gostava:
    	No fica triste, me. Sei que  chato perder uma irm. Mas a gente pode cuidar do filho dela do jeito que ela gostaria. Prometo que vou ajudar!
    Papai nos abraou tambm. Ficamos abraados durante muito tempo. Naquela noite, meu pai cuidou do jantar, enquanto mame fazia a mala. Comemos ovos fritos, o nico prato que ele sabe fazer! Minha me avisou o tio Ernni, que veio nos visitar. Meu tio  um homem calado. Mora sozinho. D aulas na faculdade de filosofia e passa a maior parte do tempo estudando ou ouvindo msica. Conversou bastante com meus pais. Concordou com a idia de meu primo morar com a gente. Resolveu ir para o interior, visitar minha av, para dar a notcia. Seria um choque para ela.
      melhor falar pessoalmente. Perder uma filha sempre  difcil. Apesar de tanto tempo de separao.
    Fez questo de ajudar na passagem. Foi timo, pois meus pais vivem esticando os salrios.
    No dia seguinte, meu pai acordou bem cedo. Informou-se sobre o horrio dos vos. Comprou o bilhete. No incio da tarde, ela partiu.
     medida que os dias passavam, fomos ficando cada vez mais espantados com as notcias. Mame telefonava todos os dias e contava coisas surpreendentes e, francamente, muito tristes. Por ter sado de casa muito cedo, sua irm no estudara. Quando ficou sozinha com o filho, a situao tornou-se muito difcil, como mame suspeitava. No tinha profisso alguma, e, muito menos, emprego. Segundo contavam as vizinhas, muitas vezes nem tinha o que comer. Morava numa casa velha, alugada, caindo aos pedaos. Vivia de bicos, fazendo uma costura aqui, outra ali, ou vendendo quentinhas na vizinhana.
    H um ano, antes de ficar doente, passou a fazer sanduches e salgadinhos para vender na praia, e a situao melhorou um pouco. Nos ltimos meses, porm, ficara invlida na cama, sem dinheiro nenhum. Para comer, vendeu o pouco que tinha de valor.
    Ningum sabia explicar como, mas era seu filho, meu primo, quem trazia comida e arrumava algum dinheiro para remdios. Era incrvel, porque meu primo era um ano mais novo que eu. No posso imaginar como conseguiu sustentar tia Edna doente!
    Minha me tratou de se desfazer dos poucos mveis, embalar os objetos. No havia nada precioso, mas ela queria guardar algumas coisas como lembrana. Tambm queria que meu primo, mais tarde, tivesse algumas recordaes da me. Soube que mame chorou muito quando encontrou um lbum de fotografias, com retratos dela, de meu tio, meus avs, e at um meu, que mame enviara para a irm. Os retratos estavam guardados com carinho, junto com algumas roupas. Mesmo distante, tia Edna pensava em ns com amor.
    Um dia falei com mame ao telefone. Estava curioso. Afinal, ia ganhar um irmo quase da minha idade, e nem podia imaginar o jeito dele! Se gostava de msica, de futebol! Se era craque no videogame... Enfim, havia uma poro de coisas que eu queria saber.
	E meu primo, como ?
    Antes de falar, minha me fez uma pausa, como se estivesse pensando. Finalmente, respondeu:
    	 um moleque muito inteligente, mas est muito assustado com o que aconteceu. Desde que a me morreu, ficou sem casa. Chegou a dormir na rua. Precisa muito de ns. Voc vai gostar dele, tenho certeza.
 Claro que vou!
 Seja muito amigo dele, Leo.
    	Volta logo, me! Estou louco pra conhecer meu irmo!
Enquanto esperava, contei para todo o pessoal da rua.
     Ganhei um irmo! Meu primo vem morar com a gente.
     Ento no  irmo,  primo!  disse Joyce, que sempre gostou de corrigir o que a gente fala.
     Mas vai ser como irmo, porque ele no tem mais casa, e agora minha casa ser a dele!
    Toda a turma queria conhecer meu futuro irmo. Queriam saber como era viver na Bahia. Artur disse que a me dele sempre fazia comidas baianas, como moqueca de peixe e vatap.
	So superapimentados!
    Nice j tinha ido a Salvador, uma vez, numa viagem de frias. Mas fazia muito tempo, porque logo depois seu pai ficou sem emprego. Desde ento, no viajavam mais pra lugar nenhum.
    	Tem um mar que  lindo, lindo! S que eu tomei muito sol e fiquei vermelha que nem um tomate. Tive de passar o resto dos dias de frias dentro do hotel, na sombra.
Lembrou com saudade aqueles dias bons.
    	Meu pai disse que, quando a situao financeira melhorar, a gente vai passar um ms inteiro na Bahia  suspirou Nice.
    L no fundo, desejei que isso acontecesse depressa. O pai de Nice estava sem emprego h mais de um ano e, pelo que eu sabia, a situao na casa dela andava de lascar. S de pensar nisso, fiquei triste, porque Nice  muito legal.
    	Quero conhecer seu primo logo que ele chegar!  disse ela.  Vamos conversar sobre a Bahia!
    Alguns dias depois, minha me telefonou. Havia devolvido a casa, pago o ltimo aluguel. Falou com um advogado para encaminhar o processo. Havia alguns problemas legais para garantir a guarda do menino, mas nada muito difcil de resolver. Como meu pai tambm  advogado, poderiam tratar desses papis em So Paulo. J havia reservado lugares no vo da tarde seguinte. Chegariam  noite.
    Fomos esper-los no aeroporto. Durante o trajeto, notei que meu pai me observava, preocupado, como se estivesse pensando em alguma coisa e no quisesse me dizer.
 Voc est com um jeito esquisito, pai!
 No  nada.
    Quando anunciaram a chegada do avio, ficamos bem na frente do porto de desembarque. Logo vi minha me caminhando em nossa direo. Parecia cansada, mas feliz. Trazia pela mo um menino tmido, de jeito assustado, pouco menor do que eu.
Mas foi uma surpresa daquelas!
    O meu primo era mulato! Mulato bem escuro, de cabelo pixaim. Negro.
    Quando eu pensava em meu novo irmo, nunca imaginava que ele seria preto. Na minha cabea, deveria ser mais ou menos parecido comigo. Loiro. Talvez at com olhos azuis iguais aos meus. Fiquei de boca aberta.
    Nem sei como no entrou um mosquito na minha garganta.
    Na minha frente estava meu primo. Era o companheiro que eu esperava h tanto tempo! Lembrei que uma vez estudei sobre a formao do povo brasileiro. Como os portugueses, ndios e negros foram tendo filhos, misturando os tipos. Mais tarde vieram os imigrantes italianos, espanhis, alemes... Portanto, nada mais normal que ter um primo mulato, ou com tipo de ndio. s vezes at irmos tm tipos bem diferentes um do outro. Puxa! Tudo aquilo passou pela minha cabea num segundo. No quis que ele percebesse minha surpresa. Sorri. Era meu primo. Meu irmo! Queria que se sentisse bem! Minha me nos apresentou.
     Leo, este  seu primo, Srgio. Vamos, d um abrao de boas-vindas!
    Notei que meu pai me observava, srio. Minha me tambm estava um pouquinho preocupada. Puxa, s vezes os pais da gente parecem bobos. Ser que eles pensaram que eu ia levar um susto, s por causa da cor? S fiquei surpreso porque nunca tinha pensado nessa possibilidade.
    Abri os braos! Apertei bem forte! Srgio ficou admirado. Hesitou. Era bem tmido, logo vi. Depois tambm me abraou. Meu pai e minha me sorriram, se abraaram tambm e trocaram um superbeijo. Acho o mximo, porque s vezes meus pais se comportam de um jeito muito apaixonado!
S mais tarde, no caminho de volta, fiquei pensativo.
    Como seria ter um irmo preto? Ser que isso mudaria minha vida?
Nem podia imaginar tudo o que iria acontecer.

    No comeo, estranhei seu modo de ser. Ele parecia ter medo de tudo. Roupa, praticamente no tinha. Minha me havia lhe comprado uma cala e umas camisetas em Salvador, para os primeiros dias. Procuramos no armrio e encontramos umas roupas que no me serviam mais. Mas no muitas: apesar de s termos um ano de diferena, ele era magrinho e pequeno, bem menor do que eu. Minha me foi a uma loja e comprou short, calas e moletons. Trouxe tambm um tnis. Nessa, quem saiu perdendo fui eu,  claro. J andava de olho em um tnis novo, de marca. Mas minha me explicou que, devido aos gastos com a viagem e com as roupas, eu deveria continuar com o velho, por um bom tempo!
    Contando assim, devo dar a impresso de que sou um anjo! Que fui superlegal e aceitei tranqilamente a perda do tnis. Aceitei coisa nenhuma! Fiz o maior barulho, confesso. Insisti, falei com meu pai. No adiantou. Ainda por cima, ouvi:
     Filho, voc tem de aprender a ser compreensivo. Talvez sua av tenha razo, voc est muito mimado!
    Mimado, eu?!  o drama de todo filho nico. Comigo acontece o mesmo que com um amigo meu. Sempre dizem que a gente  mimado. Fico furioso s de ouvir essa palavra. Acabei me conformando com a perda do tnis. Principalmente por causa do meu primo, que ia ficar muito chateado se ouvisse minha queixa. (S reclamei depois que ele estava dormindo.)
Mas ah... ele era bem esquisito!
    Desde a primeira noite, vi que ele se comportava de um modo diferente! No primeiro jantar, por exemplo. Minha me fez uma macarronada, dessas bem simples, com molho de carne moda, s para matar a fome. Meu pai comprou refrigerante. Srgio comeu mais que todos ns juntos! Que fome, puxa vida! E tambm se esbaldou com o refrigerante. Eu nunca tinha visto ningum com tanto apetite, principalmente sendo to magrinho! E o videogame, ento? Nunca tinha posto as mos em um. Se tinha visto, fora s em vitrine de loja!
    Quando botei o jogo, Srgio ficou paralisado de surpresa. Depois, comeou a rir, como se tudo aquilo fosse piada. Tentei explicar as regras. No comeo, no conseguiu brincar, porque se atrapalhava nos controles. Pior: e cada vez que se confundia, tinha um ataque de riso. Reclamei:
	Assim no d pra brincar!
    Mais que as palavras, ele sentiu o tom da minha voz. Parou imediatamente, soltou os controles. E me olhou em silncio. Que estranho! Percebi que estava... com medo. Mas medo de qu? De mim? Fiquei completamente sem jeito.
    	Eu no estou bravo com voc no, Srgio. S quero explicar como se joga.
    O negcio era ter pacincia. Expliquei com muito jeito. Aos poucos, ele foi descobrindo como se joga. Mas se cansou depressa. Videogame s tem graa quando a gente domina o controle e pode jogar bastante tempo.
Outra vez, tentei puxar papo:
	O que voc fazia na Bahia?
    Ele no me respondeu. De novo, seus olhos mostraram um susto, um medo to grande que at me senti mal. Havia algum mistrio, alguma coisa que ele no tinha coragem de contar. Eu precisava descobrir o que era. Fui fazendo perguntas, puxando assunto sobre sua vida.
    Quis saber em que ano estava na escola.
 No vou mais, no. Tinha parado de estudar.
 Srgio, voc fugiu da escola?
 Eu gostava da professora.
	Parou por qu?
Silncio. S aquele olhar fixo, que escondia alguma coisa.
    Na manh seguinte ao dia de sua chegada, quis conversar com minha me. Era sbado, meu pai tambm no tinha ido trabalhar e Srgio estava tomando banho. Tinha curiosidade sobre um assunto:
     Por que voc no me contou que ele era preto, quando a gente se falou pelo telefone?
     Quando eu falo de voc, preciso dizer que  branco?
     No, mas... Agora eu disse pros meus amigos que meu irmo estava chegando. Mas como vou dizer que  meu irmo, preto desse jeito?
Papai entrou na conversa.
     Eu e sua me falamos sobre isso, Leo. Nenhum de ns sabia que sua tia havia se casado com um negro.
     A resolvemos ver sua reao. Estamos orgulhosos de voc, meu filho. Mostrou que tem cabea aberta  completou mame.
    Pensei no que eles me diziam. Insisti na minha pergunta.
    	Mas, quando meus amigos perguntarem, o que eu digo? Ningum vai acreditar que  meu irmo.
Minha me falou, bem sria:
    	Diga a verdade.  o melhor. Diga que  seu primo, filho da irm de sua me, e que agora  seu irmo. Tornou-se parte de nossa famlia.  simples.
Meu pai tambm aconselhou:
     Espere pela reao de cada um. Voc vai ter muitas surpresas. Boas e ruins. No vou enganar voc, meu filho. Tem gente racista, sim. Mas  melhor a gente no se preocupar com isso agora. Vamos ver o que acontece. Quando surgir algum problema, a gente vai descobrir o que fazer.
     E por que ele tem um jeito to assustado?  continuei.
     A vida de sua tia no foi fcil, mal conseguia sobreviver. Seu primo passou por muitas dificuldades, desde pequeno. Ainda por cima, tudo piorou com a doena e a morte da me  disse papai.
 Voc acha que ele tem algum segredo?
     Quem sabe, ele passou por tanta coisa!  refletiu mame.  Mas o que importa agora  o futuro! Leo, prometa fazer o mximo pro Srgio esquecer tudo de ruim!
 Claro! Pode ter certeza, mame!
    Meus pais ficaram bem contentes. Sabem que gosto de cumprir minhas promessas. Acho horrvel quando uma pessoa garante que vai fazer isso ou aquilo e depois no est nem a para o que disse! Quando prometi ser um supercompanheiro para meu primo, falava srio! Muito srio!
Mas,  claro, estava com minhocas na cabea.
    Meu primo tinha algum segredo. Um segredo sobre o qual no queria falar. Era por causa desse segredo que tinha tanto medo. O que podia ser?
    Resolvi descobrir a verdade. O segredo! Que aconteceu de to horrvel para seu olhar ser sempre to assustado?

    
    Desde a chegada do meu primo, comecei a pensar na reao dos meus amigos. E dos pais deles. Como eu disse, no sou bobo. S no tinha idia de como seriam as coisas. Ser que algum deles era racista? O melhor era saber depressa. Resolvi apresentar meu primo pra toda a turma o mais rpido possvel. E o melhor de tudo... havia uma oportunidade. A festa de aniversrio de Clarice, irm de Joyce. Eu poderia apresentar o Srgio para todos os meus amigos, de uma vez!
    Assim, naquele dia, depois que meu primo tomou banho, eu disse para minha me:
 Vou levar o Srgio na festa da Clarice!
    Notei seu olhar preocupado, mas ela nada disse. Minha me tem um gnio muito parecido com o meu. Prefere encarar os problemas de frente, sem perda de tempo! Se existisse algum problema, saberamos bem depressa! Concordou com a idia e chamou o Srgio:
	Vem tomar caf!
    Ele se sentou  mesa com o mesmo olhar assustado da noite anterior. Esquisito. Parecia ter medo de comer. Olhou para os lados, como quem verifica se tem algum. Em seguida, pegou o pedao de po e devorou, encolhido, como se estivesse em um canto da sarjeta. Eu e minha me nos olhamos, assustados.
    	Srgio, no precisa ter medo. Pode comer o po  vontade que ningum vai tirar de voc. Veja. Fiz este bolo para comemorar sua chegada  disse minha me.
    Eu j havia sentido o cheirinho e estava engolindo em seco, de tanta vontade de comer um pedao. Adoro bolo quentinho! Mame cortou uma fatia, colocou em um prato, deu pra ele. Srgio pegou sem jeito. Sentei tambm, peguei o meu pedao. S depois disso ele comeu o bolo. Foi perdendo o medo e da a pouco devorou mais trs fatias, uma seguida da outra. E, depois, tomou duas canecas de caf com leite e mais dois pezinhos com manteiga. No conseguia entender. Como ele no explodia de tanto comer?
    Mame saiu com o carro de papai. Foi comprar as roupas pro Srgio (e torrar o dinheiro do meu tnis, como j contei). Aproveitou pra passar na escola e tratar da matrcula dele, o que foi bem difcil. Era preciso pedir alguns papis em Salvador. Mas a poca era tima, pois as aulas ainda no haviam comeado, apesar de o prazo de inscrio ter terminado. Mame aproveitou e trouxe tambm um presente para Clarice, num pacotinho bem bonito.
    Na hora da festa, ela nos levou de carro at o prdio em que moram as duas irms.  o melhor prdio do bairro. O nico com playground e piscina!
	 Tomara que vocs se divirtam bastante! Apesar do seu jeito tranqilo, notei que continuava preocupada. No havia nenhum negro na turma. Meus amigos gostariam do Srgio?
    Mal entrei no prdio, descobri como  diferente ter um irmo preto. As pessoas agem de outro modo. Srgio estava mais bem-vestido que eu, com um moletom novi-nho! Mesmo assim, quando chamei o elevador, o porteiro avisou, olhando para ele:
	Garoto, vai pela entrada de servio.
	Srgio mostrou aquele olhar de medo que eu j conhecia. Comeou a caminhar na direo apontada. Estranhei:
    	Por qu? Ele  meu irmo. Eu venho sempre aqui e uso o elevador social.
    O porteiro ficou meio sem jeito, disfarou. Sacudiu os ombros:
    	Ah... sei. Podem subir juntos. Pensei que ele fosse o filho de alguma empregada.
    Fiquei revoltado. Elevador de servio, eu acho, s devia ser usado por quem est com compras, ou material de trabalho que possa atrapalhar a vida dos outros moradores do prdio. Foi a primeira vez que vi o racismo de perto, na atitude do porteiro. Quando algum v um preto ou mulato, j vai pensando que  pobre, que  filho da empregada. Alis, porque a empregada ou o filho tm que tomar elevador diferente? No  gente, como todo mundo? At aquele dia, nunca tinha refletido sobre o assunto. Talvez at agisse da mesma maneira, sem perceber.
    Quando subimos ao apartamento de Clarice, as idias no estavam to claras como eu digo agora. Naquela noite, s fiquei um pouco intrigado. Era um mau sinal. Se o porteiro do prdio falava em elevador de servio, talvez a turma fosse muito pior.
    Clarice tem s um ano menos do que Joyce, e  muito bonita.  morena, tem cabelos cacheados e os lbios bem vermelhos. Para dizer a verdade, sempre fez um pouco de charme pra mim. (Eu ficava na minha, porque ela tem a mania de mascar chiclete o dia todo. Pensei muitas vezes: e se eu desse um beijo nela e engolisse o chiclete?)
Logo que entramos, a Clarice veio correndo:
	Leo, que bom que voc chegou!
    Ela me deu um beijo no rosto, e j fiquei melado por causa do chiclete. Que raiva! A, ela olhou para o Srgio, estranhando. Entreguei o presente em meu nome e no dele.
 Srgio?
  meu irmo.
    Clarice nem abriu o pacote, de tanta surpresa. Pus o brao no ombro de Srgio e fui entrando, empurrando de leve. Ele era to tmido que talvez ficasse na porta a festa inteira. Joyce, Marcos, Artur, Nice e Gabriel estavam todos sentados, fazendo pose de adultos. Era impressionante. Joyce estava de pernas cruzadas e sapatos de salto, sentada igual a uma modelo cuja foto vimos numa revista, a semana passada. A dona da casa, me das duas,  que estava trabalhando feito louca. Eu sempre tinha ouvido dizer que ela tratava as filhas como princesas. Puxa, era verdade! A me era a nica a passar as bandejas de salgadinhos, a trazer os copos etc.
  Caminhei at o sof.
	 Oi, pessoal. Este aqui  meu novo irmo, Srgio. Todo mundo nos encarou como se eu estivesse com um marciano. O Gabriel falou, espantado:
    	 Esse neguinho  seu irmo? Como  possvel?
	 Ele  meu primo direto. Mas ser como irmo, eu j falei pra vocs.  preto porque minha tia casou com um preto. Queria que fosse verde?
    A, Nice se levantou, foi at Srgio e deu dois beijos no rosto dele, um em cada bochecha.
    	Mas como voc  bonito! Parece um daqueles cantores baianos, no parece!? Voc gosta de msica?
Para minha surpresa, Srgio respondeu:
	Minha me tocava violo.
    Nice puxou Srgio pela mo, afundou com ele no sof. Os outros olharam um pouquinho, depois continuaram a bater papo. Ningum, a no ser Joyce, Clarice e a me, se preocupou muito com a cor do meu novo irmo. Pelo menos naquele momento. Mas tambm no deram a menor ateno para ele. Como se no existisse! Ainda bem que Nice estava ali! Os dois comearam a conversar baixinho, como velhos amigos.
    Clarice veio com o pacote do presente que eu tinha dado, toda feliz.
	Adorei, Leo!
    Era uma surpresa at pra mim, pois eu no abrira o pacote e, na pressa de sair, nem perguntei pra minha me o que era.	v
 Um estojo de maquiagem!  mostrou Clarice. A me dela comentou:
 Mas voc  muito nova pra usar batom.
    	Deixa disso, me! Eu vou ficar super! Ah, Leo, foi o presente mais legal do meu aniversrio.
    Eu dei um sorriso, contente.  legal fazer sucesso com um presente. S tenho uma dvida: como ela vai sair pela rua, toda maquiada, mascando chiclete. O batom vai ficar todo lambuzado!
    Depois de algum tempo, Joyce me chamou num canto. A me dela estava por perto, de orelha em p, para ouvir a conversa. Como se eu no fosse perceber!
	Ele  mesmo seu primo?
    	 meu primo, sim. Ih, Joyce, voc j sabe toda a histria. Vai ser como meu irmo, porque minha tia morreu. Ele veio morar com a gente.
A me dela no resistiu e entrou no papo:
    	Ser que sua me pensou bem? Veja,  um menino diferente, criado na Bahia, com outros hbitos...
    Eu estava preparado para responder. No   toa que passei a noite toda com os miolos fervendo, pensando, pensando e pensando em como seria ter um irmo preto.
     Dona Bina, eu sei que a senhora est querendo dizer que  estranho ter um irmo preto. Mas eu, minha me e meu pai gostamos muito dele.
     No foi o que eu quis dizer, mas... ser que ele  mesmo seu primo? Tem traos to diferentes!
    A raiva foi subindo na minha garganta. Eu estava quase dando uma resposta daquelas, porque no suporto quando as pessoas dizem uma coisa e esto pensando em outra. Vi o jeito dela. O que no gostava mesmo era da cor de meu irmo. E, por no gostar da cor, comeou a inventar assuntos, a fazer perguntas, como se andasse em crculos. Como se estivesse preparando uma armadilha para eu concordar com ela e a, quem sabe, fazer com que eu tivesse vergonha do meu irmo.
Nunca que eu ia cair na conversa dela!
    Estava pensando na resposta que devia dar. Mas nunca pude dizer. Aconteceu uma coisa impressionante!
    Nesse instante, Clarice colocou uma msica. Nada especial, um rock acelerado, que andava muito em moda. Apenas um rock.
Mas... foi horrvel.
Meu primo deu um grito.      
Um grito de medo to forte, que me gelou o sangue.
    Gritou e saiu correndo. Pulou do sof, disparou para a porta e saiu voando pelas escadas. Nem pude dizer nada. Vi a expresso da turma, chocada. Nice de p, sem entender coisa nenhuma. Joyce e Clarice paralisadas. E a me das duas com a boca aberta, como se fosse gritar tambm. Tudo isso passou pelos meus olhos como um filme. No pensei um segundo.
Sa correndo tambm, escadas abaixo.
    Alcancei meu primo na esquina. Nunca tinha visto ningum correr to depressa! S consegui chegar at ele porque resolveu parar. Encostou-se num muro, logo na virada da rua. Como se fugisse de alguma coisa.
No tive dvidas. Abracei meu irmo e disse:
    	No tenha medo, Srgio. No tenha medo de nada. Eu protejo voc.
    Senti uma enorme ternura no meu corao! Perguntei, com cuidado:
    	O que aconteceu, Srgio? Por que voc deu aquele grito?
    Mal podia falar. Somente seus lbios se moviam. Tentava dizer alguma coisa.
    	Repete, Srgio. No estou ouvindo. Preciso saber o que .
	A msica.
    Comeou a chorar, encostado no meu peito. Eu queria andar, sair dali, mas ele no se mexia.
    Msica, que msica? S podia ser a que tocou na festa. Por que ter medo de uma simples msica? As notas musicais no tm garras, no tm dentes, no tm dios.
Era mais uma pea naquele quebra-cabea.

    Gosto de ficar na cama, pensando. Foi o que fiz naquela noite, enquanto meu primo dormia enrolado nos cobertores. Era muito friorento. Tambm, pudera! Acostumado com o calor da Bahia, Srgio se arrepiava ao menor ventinho.
    Logo cheguei  uma concluso. Alguma coisa terrvel havia acontecido com meu primo. Quando ouvia a msica, ele se lembrava de tudo por que passou. O que seria? Mais ainda: por que no contava pra mim, ou pra minha me e meu pai? S mais tarde descobri que s vezes o medo fica to preso dentro da gente que  como uma fera enjaulada, uivando em nosso corao.


No dia seguinte, surgiu mais um problema.
    O prdio em que moram Joyce e Clarice  o nico que tem piscina aqui no bairro, como j contei. Eu e o pessoal da turma costumvamos nadar no prdio todo sbado e domingo. Normalmente as piscinas de prdio so s para os moradores. Mas a me delas  muito amiga do sndico, e nunca houve problema. At o domingo seguinte ao aniversrio da Clarice.
    Como fazia sempre, me aprontei para nadar. Eu e Srgio vestimos nossos cales, pegamos uma toalha cada um e fomos para l, no horrio de sempre. Srgio andava depressa, animado, com os olhos brilhantes. Acostumado a viver na praia, devia estar sentindo muita falta da gua. Quando chegamos, chamei Clarice e Joyce pelo interfone, como fazia todas as vezes. O porteiro demorou no aparelho. Em seguida, avisou:
	Elas j vo descer.
    Estranhei. Normalmente, a gente se encontrava diretamente na piscina. Esperei um pouco. Joyce e Clarice apareceram. Joyce estava toda sorridente, como se estivesse no melhor dos mundos. Clarice, completamente sem jeito.
	Aconteceu alguma coisa?  perguntei.
     Ah, Leo  disse Joyce , voc nem sabe. O sndico proibiu gente de fora na piscina. Avisou minha me hoje cedo!
      isso mesmo, Leo  continuou Clarice, em voz baixa.  No vai dar pra voc e ele nadarem aqui.
     Que chato. Ento a gente podia ir brincar l na pracinha.
    Joyce e Clarice se olharam, confusas. Clarice parou de mascar o chiclete. Tirou e fez uma bolinha, que pregou na grade do prdio.
    	Tambm no vai dar  continuou Joyce.  Eu e Clarice vamos ajudar minha me na limpeza da casa. Depois da festa de ontem, o apartamento ficou uma baguna. Fica pra outra!
    Vi que Srgio ficou chateado. Mas o que fazer? Ns nos despedimos e comeamos a voltar para casa. Lembrei de passar na videolocadora, que fica logo na esquina seguinte ao prdio. Se estivesse aberta, eu podia pegar um filme para ver mais tarde. Tinha certeza de que Srgio iria adorar os desenhos da Cinderela, Aladim ou Branca de Neve. Ah, se eu soubesse!
    Devia ter pego o Pinquio, em homenagem s duas irms mentirosas! Se os narizes delas crescessem como o do boneco de madeira, teriam chegado at o alto do prdio! A mentira tem perna curta, como logo descobri.
    A videolocadora fica numa casinha, dessas antigas, com um portozinho na frente e uma pequena varanda. O porto estava aberto. Devia estar funcionando. Entramos na varanda. Batemos na porta. Ningum. Insistimos. Nada. Algum devia ter esquecido de fechar o porto.
 Que pena  comentei quando samos.
    Para voltar, era preciso passar novamente diante do prdio da Joyce e da Clarice. Quando fechei o portozinho e pisei na calada, tive a maior surpresa!
    Gabriel estava entrando no prdio da Joyce, de toalha na mo, como se a proibio do sndico nunca tivesse existido. Pior: Joyce estava na frente da grade, abrindo o porto de ferro.
    Mil pensamentos passaram pela minha cabea. Resolvi ir at l tirar satisfaes. Perguntar por que eu e Srgio tnhamos sido cortados da piscina. Senti um toque nos ombros. Virei. Era Nice.
    	Foi a me das meninas  explicou.  Ela no quer que vocs nadem na piscina do prdio.
	Por qu?
    Nice olhou para meu primo, fez um sinal em sua direo. Por sorte, Srgio estava distrado lendo um cartaz pregado no muro.
	Mas o que ele fez de to ruim?
    	Leo, se toca! Parece que anda com a cabea na lua! Voc devia ter percebido tudo quando chegou na festa, ontem. Viu a cara da me delas? E da Joyce? E da Clarice?
    Abri meus olhos pela primeira vez. At aquele instante, era como se eu fosse cego, incapaz de perceber a realidade. S estava preocupado com a reao das pessoas, com comentrios. No imaginava que fossem agir dessa maneira. Agora entendia tudo! No gostei nada do que estava descobrindo. Nice continuou:
    	Quando elas me ligaram de manh, pedindo pra disfarar se encontrasse com vocs na entrada do prdio, fiquei louca da vida.
	Porque no me disse nada?  quis saber.
    	Eu tentei avisar! Pra voc no passar pela vergonha de ser barrado. Mas quando cheguei na sua casa vocs j tinham sado. Cheguei tarde, no?
	Deixa pra l, Nice.
    S ento percebi as lgrimas correndo pelo meu rosto. Fiquei furioso. No gosto de chorar na frente de ningum. Pra piorar as coisas, ela disse:
 No chore.
     No estou chorando  respondi, enquanto as lgrimas pingavam no meu nariz.  Vai nadar com eles. Voc no precisa brigar com a turma por minha causa.
     De jeito nenhum, Leo, eu sou sua amiga. E do Srgio tambm. Vocs podem contar comigo!
    A conversa foi me acalmando. Eu e Nice voltamos andando pela calada. Srgio ia um passo atrs, distrado, olhando os prdios, as casas. Pelo menos uma coisa eu estava aprendendo: a conhecer meus amigos. Quem era quem!
    Decidi no contar nada a mame. Ela iria ficar muito chateada. Tambm no falei nada pro Srgio. Embora, pelo jeito, ele estivesse entendendo tudo muito bem! De uma coisa eu tinha certeza: minha amizade com a turma estava quebrada como galho de rvore em dia de chuva.

    Ningum me procurou nos dias seguintes. Passei o tempo brincando dentro de casa. S uma coisa valeu: Srgio aprendeu a mexer direitinho no videogame. A gente jogava partidas. S que no tinha muita graa. Modstia  parte, eu sou um craque! Ele no dava nem pro cheiro. Alm disso, eu sentia falta do futebol, das brincadeiras de rua, do papo com meus amigos. Srgio era s um pouco mais novo que eu, mas parecia muito menor! No sabia de nada! Tinha de explicar tintim por tintim tudo o que eu falava, como se ele tivesse morado numa selva! Uma vez comentei com papai:
     Ele no conhece nem marca de automvel, pai! Nunca viu nem corrida da Frmula Um!
     Pode ter certeza de que ele tambm sabe muitas coisas de que voc nunca ouviu falar  respondeu meu pai.
    Pensei: mas se ele sabe no vai contar! Era como se tivesse a boca costurada. Falava pouco. Sua vida era o mais completo mistrio!

    Eu j sou grande, e no preciso ficar sob os cuidados de uma empregada. Temos uma vizinha, que mora sozinha.  viva, e os filhos so casados. H vrios anos, desde que voltou a trabalhar, minha me combinou com ela para eu almoar l todos os dias. Normalmente, tenho aula de tarde, e de manh a vizinha sempre d uma passadinha em casa para ver se estou bem. Nas frias, ela passa tambm de tarde, fica vendo televiso na sala de casa. No incio, minha me tinha muito medo de me deixar sozinho. Com o tempo, se acostumou, porque no sou do tipo que apronta.
    A nica vez que minha me ficou furiosa comigo foi quando fiz um barzinho de cachorro-quente na cozinha de casa. Foi fcil! Peguei toda a salsicha da geladeira, pus na panela com gua, fervi, botei no meio dos pes, enchi de ketchup e mostarda e vendi pra turma. Com o dinheiro comprei mais po e vendi cachorro-quente pro jornaleiro, pro homem da quitanda, pra um garoto que vinha passando na rua. Pensei que ia ficar rico! Mas quando minha me chegou, viu o cho cheio de ketchup e descobriu que o estoque de salsichas do ms tinha acabado. Ficou furiosa. Eu nem podia mostrar o dinheiro, porque tinha gasto tudo em doces na padaria! Ela disse que ia pr um cadeado na geladeira se eu voltasse a fazer coisa parecida! Prometi e cumpri: nunca mais montei o barzinho. Perdi a freguesia!
    Quando meu irmo veio morar em casa, ficou combinado que eu ajudaria a tomar conta dele. Meus pais tm muita confiana em mim, apesar de alguns deslizes, como o das salsichas.
    S contei tudo isso para dizer que, nas primeiras semanas, minha me e meu pai nem perceberam que eu passava os dias dentro de casa, longe dos meus amigos.
    Eu morria de saudade da turma e s vezes via todos eles brincando na pracinha. Uma vez, passei em frente ao prdio da Joyce e vi Gabriel entrando. A nica pessoa que ainda queria ser minha amiga era Nice. Mas justamente ela no podia brincar. Desde que o pai ficou desempregado, a me dela comeou a fazer gelias para uma confeitaria muito chique da cidade. Era disso que eles estavam vivendo, e Nice ajudava lavando panelas, limpando frutas. S pde me visitar uma vez. s vezes eu lembrava do tempo em que no tinha irmo nenhum, e sentia saudades. De repente, tinha trocado todos os meus amigos por aquele garoto calado, de olhar assustado, que s vezes passava o tempo todo parado, brincando em silncio. Ser que valia a pena ter um irmo assim?
    Um dia vi minha me falando com a vizinha. Notei que fez uma expresso de surpresa quando soube que eu estava mudado, no saa mais de casa. Ela veio at mim, preocupada:
     Leo, por que voc fica aqui o dia todo? No gosta mais de seus amigos?
 Ah, me... a turma  muito chata.
     Mas voc sempre foi to amigo do Gabriel, da Joyce, da Clarice.
  que... eles no gostam do Srgio.
    Minha me e eu nos olhamos longamente. Bastaram aquelas palavras para ela entender tudo o que estava acontecendo. No falamos mais sobre o assunto. Sbado de manh, ela me deu um dinheiro legal e disse que eu podia levar o Srgio para conhecer o shopping. Contei as notas: dava pra comer coisas deliciosas e at pra comprar dois bons!
    Depois do almoo, meu pai nos deixou de carro bem na entrada.
Ah, que delcia!
    Eu e Srgio fomos a uma loja que vende bolos. Acho que tem os melhores bolos do mundo naquela vitrine! Tem de morango, de coco, de chocolate, de brigadeiro, de nozes! Nem d pra descrever tudo, porque eu fico com a boca cheia d'agua s de lembrar! E, se eu fiquei assim, imaginem o Srgio. Parecia que tinha visto um fantasma. O olho superarregalado, no conseguia nem escolher. Olhava um, olhava outro. Acabei pedindo pelos dois, seno a gente no saa de l nunca. Nessa loja, a gente  que escolhe o tamanho da fatia. A moa pesou dois pedaos bem grandes. Paguei e comemos at deixar os pratos limpinhos.
A fomos comprar os bons.
    Era uma loja enorme, e ficamos um tempo escolhendo. Srgio ria tanto! Parecia que estava num parque de diverses. Pegava um, pegava outro! Era uma festa! O vendedor j estava cansado, quando escolhemos. Foi fazer o pacote, enquanto eu pagava. Quando voltei, Srgio estava esperando, na frente da loja. Abrimos o pacote e pusemos os bons.
    Continuamos olhando as vitrines. Paramos em frente de uma butique com bons bem parecidos com os nossos. Vi, do outro lado, um balco de revistas, balas, pirulitos, chocolates. J estava quase na hora de voltar para casa e decidi gastar o resto do dinheiro. Em balas,  claro! Pedi para Srgio ficar bem ali, em frente  loja, at eu voltar. No demorei muito para escolher. Estava pegando o pacotinho quando ouvi a maior gritaria:
	Pega ladro!
Olhei, assustado. Ladro no shopping?
    Havia um monte de gente na frente da loja. Srgio estava correndo pelos corredores, fugindo, com dois seguranas atrs. Comecei a gritar tambm:
	Srgio, Srgio, pare!
    Ele nem me ouviu. Corria com todas as foras. Mas, por mais rpido que fosse, no era preo para os seguranas. Foi cercado. Um monte de gente ficou em volta. Eu gritava, tentava passar pelas pessoas, mas elas no me deixavam. Vi, atravs das pernas da multido, quando Srgio foi preso, com as mos postas para trs. Era incrvel! Ele se debatia tanto que foram precisos trs seguranas para prend-lo.
    Quando, finalmente, cheguei at eles, gritei:
 Por que ele est sendo preso? O que foi que fez?
 Roubou um bon!  trombadinha!
    Entendi tudo. O dono da loja pensou que ele tinha pego o bon em exposio!
	No roubou, no. Eu comprei, ele  meu irmo. Ningum me ouviu. Nem prestaram ateno em mim.
 horrvel quando pensam que a gente  muito criana e no sabe do que est falando. No tive dvidas. Corri at o primeiro telefone  sempre carrego fichas comigo  e chamei meu pai.
 Srgio foi preso.
 O qu? Vou para a agora mesmo!
    Depois, corri at onde fica a segurana do shopping. No podia ver Srgio, mas sabia que ele estava trancado ali dentro. Havia um homem na porta. Eu disse:
 Est tudo errado. Meu irmo no roubou nada.
 Que irmo?
 O menino que vocs prenderam no primeiro andar.
     No vem com histria.  claro que aquele menino no  seu irmo.
 Ele  preto mas  meu irmo. , sim!
     Pra de fazer barulho, garoto. Ns j chamamos a polcia. O trombadinha vai ver o que  bom pra tosse!
    Esperei, nervoso. Puxa vida! Pensei, preocupado: "Srgio, que  to medroso, passar por uma coisa dessas". E, enquanto esperava, cheguei a uma concluso.
    Srgio fora preso porque era preto. S por ser negro, pensaram que era trombadinha. Sabia que ele no roubara o bon. Estavam fazendo confuso, porque ele tinha um bon novinho na cabea e pensaram que havia pego da loja.
	Mas... e se fosse eu?
    Lembrei de uma vez, h muito tempo, em que peguei um caminhozinho numa loja e comecei a brincar no cho. Minha me estava no outro canto, fazendo compras. Quando o vendedor percebeu, pegou o caminhozinho da minha mo, com muita delicadeza, e explicou que eu no podia brincar com ele.
Ningum chamou a polcia.
    Acharam que Srgio era trombadinha por causa de sua cor.
    Dali a pouco, chegaram dois policiais, acompanhando uma senhora bem-vestida, com ar simptico. Corri at ela.
 Est todo mundo errado! Ele  meu irmo! O policial ficou bravo:
 Do que voc est falando, moleque? Insisti:
 Ele no  trombadinha!
A mulher olhou para mim, interessada:
	Voc est falando do garoto que viemos buscar?
    	 isso mesmo! Eu comprei o bon. Eu tenho a nota fiscal. Um pra mim, outro pra ele.
O segurana que estava na porta avisou:
 Esse menino est fazendo confuso.
 No  confuso coisa nenhuma! Eu explico tudo. A mulher pensou um pouco e disse:
 Vamos entrar. Quero ver o garoto.
    Entramos numa sala minscula. Srgio estava sentado numa cadeira, superassustado. Tinham tomado o bon dele. Nunca vou esquecer o medo que vi em seus olhos. Corri at ele e o abracei:
	Srgio!
A mulher perguntou:
 Voc  mesmo irmo dele?
 Ele , sim!  disse uma voz.
    Era meu pai. Finalmente, chegara! Estava parado na porta, horrorizado com a situao.
	O senhor conhece os garotos?
    	Leonardo  meu filho, e Srgio est sendo adotado.  sobrinho direto. Quero saber por que ele est aqui, sendo coagido.
    Os seguranas ficaram assustadssimos. A mulher explicou que era comissria de menores e tinha sido chamada porque, segundo fora informada, havia um garoto de rua solto no shopping.
	Vocs vo me explicar o que aconteceu. Chamaram o dono da loja. A comissria de menores
pediu para ver o bon, que fora guardado pelos seguranas.
 A etiqueta  de outra butique.
 Claro  eu disse , comprei em outra loja. O acusador ficou completamente sem jeito:
    	 que eu vi o menino parado em frente aos meus bons, com outro igual na cabea, e pensei... pensei que ele estava roubando.
    Meu pai ficou mais furioso do que eu j estava:
     Pensou e foi chamando a segurana, sem nem mesmo confirmar. Eu posso processar o senhor e o shopping.
    Todo mundo comeou a pedir desculpas. A comissria disse que meu pai tinha razo. O dono da loja declarou fazer questo de dar bons pra mim e pro Srgio. Mas meu pai no aceitou. Foi at Srgio e o tirou da cadeira.
	Vamos embora, meu filho.
Mas tudo que aconteceu em seguida foi horrvel!
    Srgio tremia tanto que nem conseguia ficar de p. Quando levantou, encarou fixamente os policiais e os seguranas.
Deu um grito.
E desmaiou nos braos de papai. 
    Ficamos horas e horas no pronto-socorro. Mame veio se encontrar com a gente. Mais tarde o mdico veio falar conosco. Srgio tinha sado do estado de choque, mas seria bom que ficasse at o dia seguinte em observao. Mame resolveu dormir com ele, num quarto do hospital. Eu e papai fomos para casa.
    Sentamos na sala e durante muito tempo nada falamos. Finalmente, ele comentou:
	Dia difcil, hem, filho?
    De repente eu senti necessidade de falar tudo o que estava preso na minha garganta.
	 No foi s hoje. Pai, eu no agento mais! Ento eu falei e falei. Contei a proibio de nadar no prdio da Joyce e da Clarice. Da turma, que andava me evitando. Da situao horrvel no shopping.
    Ah, eu no queria mais continuar trancado em casa dia e noite com um irmo postio que nem conversar sabia! No queria perder meus amigos s por causa dele! No queria deixar de ir ao shopping, porque meu irmo parece um trombadinha!
    	Eu quero voltar a ser como antes, pai!  muito chato ter um irmo preto!
    Meu pai ficou me olhando um bom tempo. Depois resolveu falar:
 Se ele fosse branco seria mais fcil?
 Seria, pai. Seria!
 Mas a gente no pode pintar a pele dele!
 Eu sei!
	Ento vamos conversar.
    Meu pai falou durante muito tempo. Explicou que nos Estados Unidos o preconceito racial  to grande que at existe uma organizao, chamada "Ku Klux Klan", que comete violncias contra os pretos. Muitas vezes, mata. Uma organizao de brancos que surgiu aps o fim da escravido.
    No Brasil, explicou meu pai, o preconceito  disfarado. Mas existe. Quantos pretos a gente v no shopping, por exemplo? Em compensao, quantos negros ou mulatos esto na rua, pedindo esmola? No  que no existam brancos pobres, passando fome. Claro que existem. Mas os negros tm menos oportunidades. E se o pai e o av tiveram menos chances, assim tambm ser com o filho.
    	 uma sociedade na qual o negro tem poucas chances de estudar, de aprender, de crescer profissionalmente  disse meu pai.  Ser que isso est certo? Durante muito tempo, a economia do Brasil dependeu dos negros. Do trabalho escravo, feito por homens comprados na costa da frica. At o fim da escravido, os brancos tratavam os negros como animais. A palavra mulato, por exemplo, que a gente usa sem pensar, vem de mula. Como se os negros fossem uma espcie de burro de carga. Com o fim da escravido, muitos brancos continuaram agindo como se os negros tivessem menos direitos.
Papai continuou falando:
     No entanto boa parte das famlias brasileiras tem um pouco de sangue negro. Mesmo que no aparente.
     As pessoas namoram, amam, tm filhos. As raas se mesclam. Ainda bem. Mas muita gente age como se isso no fosse verdade. Voc j pensou, por exemplo, no nmero de piadas sobre pretos que corre por a?
 Claro, pai. Eu mesmo j ouvi vrias.
     Todas elas mostram o negro em situaes feias. De acordo com essas piadas, ele sempre  burro, ladro, malandro. Cont-las  uma forma de estimular o preconceito.
Finalmente ele chegou ao cerne da questo.
    	Eu sei que  difcil, filho.  muito mais difcil do que se ele fosse branco, de olhos azuis, como voc. Mas ser que tudo na vida deve ser fcil?
Papai continuou falando sobre suas idias.
     O que faz o homem diferente dos animais? Ns construmos uma civilizao. Somos capazes de fazer foguetes, de criar espcies de plantas, de descobrir remdios, de criar bombas que destroem a Terra em minutos, de inventar tratamentos para doenas horrveis.
 Ns... ns temos a inteligncia, no ?  respondi.
     De que vale a inteligncia, se no soubermos melhorar nossa capacidade de amar o prximo? Mudar nosso corao?  perguntou meu pai.
    Olhei para meu pai. Seus olhos brilhavam, como ficava quando se entusiasmava por algum assunto. Ele continuou:
    	A civilizao s valer a pena quando todos os homens forem irmos. Se o homem ataca seu irmo porque ele tem a pele diferente,  pior que os animais. Pelo menos os bichos costumam defender sua prpria espcie.
    Meu pai falou de muitas coisas bonitas, durante bastante tempo. Explicou tambm que muita gente tem, sim, preconceito. Ter um irmo preto pode ser difcil. Mais difcil ainda  ser o prprio negro, sentindo na pele a dor do preconceito.
    	Mas superar as dificuldades, isso sim  que  bonito. Isso  que faz de um garoto um homem. Isso  que transforma um homem numa pessoa melhor. Ao contrrio, uma pessoa cheia de dios, de preconceitos nunca poder ser feliz.
    Quando meu pai terminou, fiquei pensando muito tempo. Ele falara de coisas novas. Em parte, eu conseguia entender. Mas tambm continuava revoltado.
    Por que eu, que tinha pele branca e olhos azuis, era obrigado a sofrer os mesmos problemas que os negros?
    No seria melhor entregar meu primo pra minha av, ou pro meu tio? Ou descobrir onde andava o pai dele e devolver?
    Eu queria que tudo voltasse a ser como antes. Ah, se fosse possvel! Eu no queria mais ter um irmo!

    
    No dia seguinte, Srgio voltou para casa. Continuava calado, mais triste que antes. Passou o dia todo em um canto, brincando sozinho. Para ser bem franco, eu tambm j no tinha muita pacincia com ele. Resolvi sair um pouco.
    Primeiro, passei na Nice. No estava. Andei at a pracinha. Talvez encontrasse algum da turma. Queria bater um papo, brincar. Estava vazia. Esperei, ningum apareceu. J estava pensando em ir embora, quando vi Clarice. Ela veio conversar, toda sorridente.
	Oi, Leo.
    Fingi que estava bravo com ela. Na verdade, eu estava louco para saber da turma.
     Que foi, Clarice? Primeiro vocs me cortam da piscina, e agora voc vem pro meu lado toda simptica?
     Se voc quiser nadar l no prdio, tudo bem. Sabe o que , Leo...  que minha me no gostou do seu primo.
 Irmo.
    	Mas  claro que ele no  seu irmo. Qualquer um v!
    Olhei para Clarice, pensativo. Ela parecia mais bonita. Os cabelos tinham crescido, ela havia engordado uns quilinhos. Melhor ainda: no estava mascando chicletes. Dei o meu sorriso "super x" e perguntei.
 Voc quer que eu v?
 Claro que quero.
 Voc tem saudade de mim?
Ela pensou um pouco e respondeu:
    	Ih, Leo, quanta pergunta. Quer saber? A piscina no tem graa sem voc. Vai nadar comigo, vai!
	S vou se voc me der um beijo.
    	Ai, Leo, que feio! Uma coisa no tem nada a ver com a outra.
	Pra mim, tem. D um beijo que eu vou nadar. Eu estava entusiasmado com a mudana das coisas.
H um minuto no tinha com quem falar. Agora Clarice estava praticamente implorando para namorar comigo. Olhei seus lbios: eram vermelhos como morangos.
 Eu s dou o beijo dentro da piscina!
 Deixa de chantagem, Clarice!
 Vai l hoje  tarde. Estou esperando!
    Dei dois pulos e sa correndo. Como diz o ditado, estava matando dois coelhos com uma cajadada s. Alm de nadar, ia ficar com Clarice. Pensei em sair com ela no sbado, ir ao cinema do shopping. Pegar na mo! Pr o brao nos ombros... e dar um beijo que nem o dos artistas de televiso.
    Quando cheguei em casa, meu corao batia forte. Peguei o short na gaveta. Achei uma toalha velha, enrolei o short dentro dela. Estava superalegre. Mas a percebi que Srgio estava me observando.
Sem falar nada, apenas olhando.
    Meu entusiasmo foi sendo trocado por um aperto no corao.
    Eu no podia trair meu irmo daquele jeito. No podia ir nadar justamente na piscina onde no queriam que ele entrasse. Nem mesmo para ganhar um beijo de Clarice.
    Alis, como podia pensar em ficar com uma garota que nem queria saber de meu irmo?
    Guardei a toalha, o short. Peguei o telefone, disquei. A prpria Clarice atendeu. Expliquei depressa:
	 Eu no vou nadar a, no.
    	 Ah, vem sim. Eu j falei pra Joyce que voc vem, e ela ficou supercontente.
  S se o Srgio puder ir tambm.
  Ih... no d, Leo. Minha me...
      Manda a sua me beber toda a gua dessa piscina, que eu no fao questo de nadar nela.
      No seja mal-educado. Minha me vai ficar chateada se eu contar, e vai reclamar pra sua!
      Pois reclame! Eu conto que ela  uma preconceituosa, que ela  contra o Srgio! Quero ver pra quem minha me d razo!
      Pra de xingar minha me. Pra! Pra de defender esse tio.
  Tio  a v. Meu irmo tem nome.  Srgio.
      Se voc continuar falando desse jeito, eu nunca vou beijar voc. Nunca, seu grosso!
      Posso ser grosso, mas no sou burro e preconceituoso como voc, sua me e sua irm. E quer saber de uma coisa? Eu  que no quero beijar voc. Voc  muito criana pra mim!
  Eu? Voc  que tem cheiro de leite!
  E voc usa fraldas!
  Burro!
  Chata! Miss Chiclete. Chicletuda!
      No me chama de Chicletuda que eu nunca mais falo com voc.
	Pois eu  que no falo mais! 
Plac!
    Ela bateu o telefone. Bati tambm. "Pssimo comeo de namoro", pensei. Srgio estava na minha frente. Tinha ouvido toda a conversa.
    	Se voc quiser ir nadar, tudo bem. Eu no ligo  disse ele.
    Meu irmo estava por dentro de tudo! Fiquei sem jeito. Respondi:
 Eu tambm no ligo.
    Eu e ele nos olhamos um tempo. O que dizer nessas horas? Sabia que ele entenderia se eu ligasse pedindo desculpas e fosse nadar. Clarice faria um sermo, mas me perdoaria. Tinha certeza! No fundo do meu corao, eu sabia de uma coisa: se fosse nadar, seria como se estivesse construindo um muro entre mim e Srgio.
    No incio, seria um muro pequenininho, e a gente se entenderia todas as vezes.
    Mas cada vez que eu sasse com meus amigos, sem lev-lo comigo, o muro aumentaria.
    Ele encontraria outros amigos, eu sei. Mame estava providenciando os papis, j havia conseguido a vaga na escola. Ele iria conhecer gente, teria sua prpria turma. Mas no seramos como dois irmos, amigos e companheiros. Eu seria um estranho para ele, e Srgio, um estranho para mim.
Lembrei das palavras de meu pai.
     assim que devem viver os homens? Aceitar o preconceito, a dor, o medo, s porque  mais fcil?
    Claro que seria mais fcil ter um irmo loiro como eu. Claro que seria mais fcil ter continuado a ser filho nico.
    Mas o Srgio agora era meu irmo.  como um irmo que eu devia me comportar. Com a mesma amizade, com o mesmo amor do irmo dos meus sonhos. Mesmo porque... foi ento que eu percebi, eu j gostava dele! Gostava, sim!
    Quando a gente gosta de algum, deve gostar da pessoa como ela . No podia pensar que seria mais fcil ter um irmo branco, se o que tenho  negro. "Quero ser amigo dele", pensei. "Um homem s  homem quando ouve seu corao."
    Tem coisas que a gente no precisa explicar com palavras. Simplesmente mudei de assunto. Ofereci:
 Quer um doce?
Fez que sim com a cabea. Srgio era pior que formiga.
    Estvamos sozinhos em casa. Fui at a cozinha, abri a geladeira. Vazia. Vasculhei o armrio e decidi fazer uma coisa que no costumo: abrir uma lata de doces! Mame sempre tinha alguma reservada para a sobremesa, no caso de vir visita. Mas era uma ocasio especial! Quando eu explicasse, ela entenderia! Peguei uma lata de pssegos em calda. Srgio me observou quando abri a gaveta para pegar o abridor.
    Temos um timo, superfcil de usar, mas no achei de jeito nenhum. Que desespero!
    Quem gosta de doce, sabe exatamente como eu me senti. A lata estava na minha frente, cheia de deliciosos pssegos em calda! S precisava abrir. Fiquei doido! Se eu tivesse uma dinamite, era capaz de pr na tampa da lata. Que raiva! O doce estava l, na nossa frente, e s bastava dar um jeito de abrir aquela lata chata!
    Vasculhei todas as gavetas. Acabei encontrando um abridor velho, quase sem corte.
    No quis esperar nem um minuto. Botei o dito-cujo na tampa da lata e fui abrindo do jeito que dava. Belo esforo! O abridor saa, arranhava. A lata virou duas vezes. A calda escorreu pela pia. Um desespero. Finalmente, a vitria! A tampa desprendeu. Eu estava to farto de dar duro com a lata que me distra.
Cortei o dedo na tampa.
Quando vi, o sangue escorreu pela minha mo.
    Srgio deu um grito. Um grito terrvel, como nas outras vezes. Mais que com o sangue, fiquei assustado com o terror que vi no rosto de meu primo.
Olhava o sangue. Apavorado. Seu corpo inteiro tremia.
Ele ps as mos no ouvido e saiu correndo.
Enquanto corria, gritava, gemia, soluava.
	No! No, por favor, no!
    Botei o dedo na boca e corri atrs. Encontrei Srgio encolhido do lado do armrio, gemendo e chorando. Eu me encostei do lado dele, abracei bem forte.
 Srgio, no tenha medo. Foi s um corte.
 No... no!  ele chorou.
    Num instante, percebi o que estava acontecendo. O sangue fez com que Srgio se lembrasse de algum acontecimento pavoroso. O mesmo que fizera com que ele corresse ao ouvir a msica. Lembranas que, de to fortes, provocaram seu desmaio quando viu os seguranas e os policiais armados.
Tomei coragem e insisti:
     Srgio, conta pra mim. O que aconteceu com voc? No tenha medo, Srgio, pode contar. Voc est aqui, em casa, longe de tudo. Eu protejo voc. Srgio, sou seu irmo! Seu irmo!
Ele comeou a chorar mais alto.
    Mas,  medida que chorava, foi desatando as palavras. Algumas vezes no saam inteiras. Outras, repetia a mesma frase.
Srgio me contou tudo.
Uma histria de arrepiar.

    Eram pobres, muito pobres. No havia dinheiro pra nada, e Srgio ajudava carregando sacolas nas feiras livres dos bairros ricos, engraxando sapatos no Mercado Modelo, o mais famoso de Salvador. Tia Edna fazia o que podia costurando ou fazendo sanduches para vender na praia. As frias eram a melhor poca, pois a cidade ficava cheia de turistas. Srgio e a me passavam o dia na areia, de cesta na mo, gritando:
    Sanduches naturais! Coxinha, empadinha! Ainda recordava a voz da me, delicada:
 O que o senhor prefere, atum ou pasta de queijo?
 Este de ricota est uma delcia!
    Mas um dia ela caiu doente. A comida foi acabando. Pequeno daquele jeito, Srgio tornou-se o homem da casa.
    Os vizinhos at que ajudaram bastante no comeo. Mas eram to pobres quanto eles. Quem nada tem, pouco pode oferecer. No havia mais p de caf, leite, arroz, feijo. A despensa vazia, a me na cama. Chamaram um mdico amigo, que abanou a cabea e deu uma receita com um monte de remdios que eles no podiam comprar.
    Srgio continuou a trabalhar na feira. Mas agora ficava at mais tarde, ajudava os comerciantes a retirar as barracas em troca das laranjas amassadas, das verduras murchas. Da xepa. Do que sobrasse, enfim. Corria para casa com os braos cheios do que conseguia levar. A me ensinou alguma coisa, o resto ele aprendeu com a vizinha da casa ao lado (a mesma que mais tarde escreveu  mame). Botava tudo no fogo, fervia com alho e cebola. Fazia um caldo grosso. Disso passaram a viver. Era sopa de alface com cebola e repolho misturada com banana. Mandioca com almeiro e tomate. O gosto podia no ser l dos melhores, mas enchia a barriga.
    Conseguiu vender um rdio velho, a aliana da me e um anel que restou dos bons tempos. Juntou com as gorjetas, levou a receita e o dinheiro na farmcia. O farmacutico leu e aconselhou a levar apenas dois dos remdios, os mais importantes. Depois abanou a cabea como fez o mdico. Todos faziam a mesma expresso de desalento quando falavam de sua me.
    Os vizinhos tentaram um hospital, no havia vaga. Nem esperana. Tia Edna faleceu em poucas semanas, na cama. Segundo mame havia me explicado, era um caso grave.
    ptfa primeira noite, Srgio dormiu na sala da vizinha. No mesmo dia, assaltaram sua casa, levaram as poucas coisas de valor que sobraram, como um retrato com moldura de prata, que fora de sua av paterna. O aluguel estava atrasado, o dono da casa queria retomar o imvel. Falavam em mand-lo para um orfanato. Srgio resolveu fugir. Passou a viver nas ruas.
    Foi ento que a vizinha, velha amiga da me, lembrou da famlia, que vivia em So Paulo. Achou o endereo, enviou a carta. Enquanto isso, Srgio se perdia pela cidade. Tentou voltar para casa, no pde. O proprietrio havia trocado a fechadura. Disse que tudo que havia l dentro seria dele, se ningum pagasse as contas atrasadas.

Srgio disse que estava esperando a tia, que logo viria busc-lo. Era sua nica esperana: a tia Edith, minha me, para quem a vizinha escrevera. Srgio implorou para que a vizinha no chamasse o comissrio de menores. Tinha medo das instituies, onde tantos amigos tinham ido viver. Pois, cada amigo que era levado, tinha um destino pior que o outro. Quando ouvira falar deles, mais tarde, fora nas pginas dos jornais mais sangrentos, depois de um roubo malsucedido. Fugiu novamente. Disse  vizinha que ia ficar na casa de um amigo   claro que ela no acreditou, mas o que podia fazer? Prometeu passar todos os dias, na esperana de que a tia de So Paulo aparecesse. Mais tarde soubemos que a vizinha enviou trs cartas, que voltaram por erro de endereo. Copiara o nome da ma numa grafia completamente errada. Finalmente, no correio, um funcionrio ajudara a remeter corretamente.
Esse tempo todo Srgio viveu nas ruas.
    Foram dias difceis, mas no to duros como durante a doena da me. Salvador  quente, jamais faz frio. Dormir na sarjeta, no vo de uma porta, na praia, no  to difcil assim. Comida, havia. Os comerciantes do mercado e os feirantes, que j o conheciam, sempre lhe davam uma fruta. "Ajudava a carregar sacolas e ganhava para um sanduche. Era duro, mas no impossvel.
    Fez amizade com outros meninos que, como ele, dormiam nas ruas do Pelourinho ou nas praias desertas. Em poucas semanas, passou a dormir com os bandos, a participar das farras. Experimentou bebida forte.
    Talvez ele nunca mais procurasse a vizinha, se no fosse um acontecimento horrvel. Estava se acostumando com aquela vida sem rumo, com os novos amigos, para quem dia ou noite, sbado, domingo ou dia de semana no tinham diferena nenhuma. At a tarde em que um dos garotos chegou esbanjando grana. Tinha mais dinheiro nos bolsos do que Srgio jamais vira. Comprou sorvetes para todo mundo, duas garrafas da branquinha, um monte de acarajs. O chefe do grupo perguntou de onde vinha toda aquela quantia. O garoto disfarou, disfarou, mas acabou contando a verdade. Era roubo. Foi um susto, porque, quando examinaram a carteira surrupiada, viram os documentos do dono.
    Era um homem importante. Na cidade inteira, todo mundo sabia: tinha amigos polticos, vivia no mundo dos gr-finos. Sua fortuna tinha origem nas drogas. Era conhecido e temido por todos os bandos.
     Como voc conseguiu afanar a carteira desse cara poderoso?  perguntou o lder.
    Nem o garoto conseguia explicar como pegara o dito-cujo distrado, ou como no fora agarrado por seus seguranas. Aconteceu durante a inaugurao de uma avenida da cidade. Ele estava no meio de um monte de gente engravatada, no alto de um palanque. O garoto deslizou pelos cordes de proteo, subiu no palanque, ningum viu. Talvez tivesse sido confundido com o filho de algum participante, pois no estava malvestido. Em cidade de praia, as roupas se confundem. Pobres e ricos usam short e camiseta a maior parte do tempo. Pegou a carteira suavemente, desceu do palanque e saiu correndo.
     Ele viu voc?  perguntou o mais velho do bando, com medo.
     Viu  disse o ladro com olhos arregalados tambm.
    No momento em que ele estava passando por baixo do cordo, o homem sentiu a falta da carteira. Olhou, viu seu rosto quando fugia. Fez um sinal. Dois seguranas o perseguiram. O assaltante foi mais rpido.
    	Nem acreditei quando abri a carteira e vi aquele monte de dinheiro.
 Mas voc no viu que era ele?
 No. S agora, por causa do nome nos documentos.
 Entramos numa fria  disse o chefe.
    A noite caiu e, com ela, desceu o terror. Os garotos ainda tentaram se esconder. Mas no havia quem pudesse fugir de uma rede bem armada. O homem queria vingana. Sua autoridade no mundo do crime seria abalada se perdesse a carteira para um ladrozinho de rua e no se vingasse! Seria uma noite de sangue, e todos eles sabiam.
    Quando as famlias terminavam de ver as novelas e jantavam em suas casas, os garotos ouviram os primeiros carros. Sirenes.
    Naquela noite, quem tinha me, parente ou amigo, tentou fugir. Muitos foram arrastados dos barracos, colocados nos carros, rodaram pela noite. O grupo de Srgio tentou se ocultar nas pedras da praia, no conseguiu.
    O homem esperava diante do carro. Um a um, os garotos foram levados at ele. Apanhavam, caam de joelhos. Um rdio tocava alto, para ocultar os gritos. O homem olhava, depois dizia:
	No  este, no.
    Srgio foi agarrado como os outros. Levou bofetadas. Finalmente, foi posto em uma longa fila de garotos amarrados uns aos outros. Dos prdios, as pessoas podiam ver. Mas fingiam que nada estava acontecendo.
Finalmente, o homem reconheceu o assaltante.
	Devolve a carteira.
    Tremendo, o garoto estendeu a dita-cuja. O homem abriu, examinou. Nem olhou se tinha dinheiro. Buscou um compartimento fechado a zper, tirou uma foto trs por quatro, sorriu, aliviado:
	Sorte sua, que no mexeu na foto da minha filha.
	O garoto ainda sorriu, achando que ia ser perdoado. Srgio tambm teve esperana. Que nada! O homem continuou, com o mesmo sorriso:
     Se tivesse mexido na foto da minha filha, ia morrer gemendo. Eu prefiro que seja diferente. No gosto de ver criana sofrer.
    Entrou no carro e fez um sinal de cabea para os capangas. No escuro, Srgio distinguiu o rosto de um policial que trabalhava no Mercado Modelo. Pensou em gritar seu nome, pedir socorro. Mas a voz nem saiu, de tanto medo.
    Os homens enfiavam os garotos, todos, sem exceo, dentro dos carros. Desesperados, os garotos batiam nas portas trancadas. Srgio no conseguia entender. No havia feito nada. Pra onde estava sendo levado? Os carros partiram.
    Foram para longe da praia, num barranco, perto do rio. Desceram do carro. Srgio ainda pensou, porque a esperana  a ltima que morre: "Vo soltar a gente aqui, longe da cidade!"
    Ento o rdio comeou a tocar mais alto. Mais e mais alto. Era um rock pesado, que Srgio nunca mais pde esquecer. Disfarado pelo rock, comeou um outro som. Parecia, a princpio, o rudo de fogos de artifcio. Pipocava. Os meninos foram caindo, com o sangue jorrando pelos buracos das cabeas, dos peitos, com os gemidos e gritos sufocados pelo terror.
A metralhadora continuava, implacvel.
Srgio caiu tambm. Desmaiou de medo.
    Acordou com o dia alto. Sol na cabea. Pensou que estava morto, ao ver o sangue seco nos corpos de seus amigos, as feridas infestadas pelas moscas. Demorou para perceber que estava vivo.
No tinha ferimento algum.
    Quando desmaiou, na escurido, foi dado como morto tambm. Talvez tivessem passado por ele, chutado. No reagiu, em pleno estado de choque. Estava sujo, mas somente com o sangue dos outros.
    Demorou muito tempo para se acalmar e perceber que no havia ningum por perto. Examinou seus amigos. Nenhum vivo. Foram mais alguns minutos terrveis, apavorantes, para desamarrar as mos e deixar aquele barranco banhado em sangue.
    Correu pelo descampado quando ouviu o barulho de um caminho. Conseguiu se esconder a tempo.
    Viu quando os homens chegaram com ps. Os mesmos da noite anterior. Cavaram durante muitas horas. Tempo em que Srgio ficou escondido, sem fazer um movimento. S se levantou quando todos partiram, e os corpos tinham sido enterrados. No havia mais sinal da matana.
Era quase noite.
    Foi andando, quase caindo de fome e sede. Parou num bar, conseguiu um sanduche de po velho. Com a condio de ir para longe. Dar o fora. O dono e sua mulher tinham ouvido o rugir da metralhadora, gritos e gemidos. Mesmo assim, preferiram ficar calados, porque isso era normal naquela regio. No queriam ser vistos com o garoto. Nem ser testemunhas. Muito menos, ajudar.
    Caminhou at seus ps ficarem cheios de bolhas. No tinha coragem de parar nem para um segundo de descanso. Temia que os homens estivessem atrs dele. Depois de muitas horas, chegou a sua antiga casa. Estava escura.
    Forou uma janela, deitou em sua cama. Chorou a noite toda lembrando de sua me e do tempo feliz em que viveu com ela. Eram pobres, mas ele tinha casa. Tinha cama e o que comer. Sobretudo, no tinha medo de ser caado como um bicho.
Passou um dia trancado, sem comer.
No outro, mame chegou para busc-lo. Estava salvo!
    Quando veio morar conosco, no encontrou s uma famlia.
Ganhou a vida.
     claro que contei a histria de Srgio com minhas prprias palavras. S agora posso fazer isso. Ao ouvir tudo, fiquei to chocado que ns nos abraamos por horas e horas, sem falar. Quando mame e papai chegaram, ficaram surpresos com o silncio da casa. At pensaram que tinha acontecido alguma coisa, pois a lata de pssegos estava derrubada na pia e havia um rastro de sangue at meu quarto. Nunca vou esquecer o grito de mame, quando nos encontrou, com as manchas de sangue do meu dedo por toda a roupa. Por sorte, meu corte sarou sem inflamar.
    Fiz questo de contar a histria de Srgio para meus pais no mesmo instante. Ele tinha medo de falar. Era seu segredo. Mas agora, no podia mais ser segredo! Quando comecei, ele foi me corrigindo nos detalhes, e,  medida que falava, parecia chorar menos. Como se fosse mais fcil contar pela segunda vez.
    Meus pais ficaram chocados. Depois de tudo, minha me foi  cozinha, preparou um jantar rpido. Salvou os pssegos e deixou a gente comer  vontade. Meu pai pegou o telefone e ligou para um advogado que defende os direitos humanos.
Essa  uma outra histria, mas vou simplificar.
    Baseado no relato de Srgio, um grupo de advogados fez uma denncia. Descobriram o lugar da chacina e os corpos enterrados. Foi um escndalo que chegou at as pginas dos jornais internacionais. O mundo inteiro falou nisso. A imprensa falou da existncia de uma testemunha que sobrevivera, mas ningum sabia quem era.
    Srgio passou dias reconhecendo fotos, na polcia, junto com meu pai. Lembrou o nome do policial que reconheceu. Foi uma sorte no ter gritado o nome durante a chacina. Certamente teria sido morto no ato. O homem foi o primeiro a ser preso. O processo contra os assassinos ser demorado. Principalmente porque Srgio  menor de idade e tudo deve ser feito com muito cuidado. O importante, porm,  que o crime foi denunciado e o grupo de advogados far o possvel e o impossvel para que no seja esquecido.
    Depois que Srgio desabafou, tornou-se muito diferente.
    Parece que ficou mais vivo, com outro brilho no olhar. Conta outras histrias da Bahia, inventa maneiras de a gente ganhar dinheiro. Foi idia de Srgio, por exemplo, fazer sanduche natural e vender na porta dos estdios de futebol. Minha me no queria que a gente fizesse isso. S aceitou depois que prometi pagar os pes, a ricota e os outros ingredientes com o rendimento das vendas. Valeu a pena. Ganhamos um dinheiro e at consegui comprar um novo cartucho de videogame. O melhor  que ainda conseguimos assistir os jogos de graa!
    Descobri, aos poucos, que meu irmo tem muita coisa pra me ensinar. Descobri tambm que algumas coisas podem ser difceis, mas por isso mesmo, quando conquistadas, parecem ter mais valor!
    Acreditem ou no, estou falando nisso por causa de Clarice.
    Depois do episdio da piscina, pensei que tudo estava acabado. Acreditei que nunca mais ela viria falar comigo. Mas no foi o que aconteceu. As pessoas mudam, e saber disso na prtica foi tambm uma grande surpresa.
    Poucas semanas depois, encontrei com ela na padaria. Comprava chicletes. Ficou me olhando de um jeito esquisito. Fingi que no estava nem a. Posso ser grosso, mas no sou falso. No sou do tipo que comea a sorrir e bancar o simptico se estou magoado com algum. Olhei para ela, srio, e nem cumprimentei. A ela veio pro meu lado:
 Quero falar com voc.
 Estou ouvindo.
 No aqui. Outra hora, em outro lugar.
     Se  pra ficar fazendo chantagem com a sua piscina, desista. Nem tenho tempo pra nadar, se voc quer saber.
     Ih, j vem voc com esse negcio de piscina. Eu nem estava pensando nisso, ouviu? Leo,  srio. Preciso mostrar uma coisa.
	O que ?
    	V me encontrar hoje  tarde na pracinha. Sozinho. Vou contar um segredo.
    Quem  que resiste a um mistrio? Nem almocei direito. Fui voando para o encontro. Confesso que tambm sentia meu corao bater depressa, como no dia em que ela prometeu o beijo. Quem sabe?
    A Clarice estava me esperando, com um envelope na mo.
	Veja!
    Ela me entregou um envelope. Abri. Era a foto de uma preta muito velha, de roupa comprida. Uma dessas fotos amarelas, de muito tempo atrs.
 Por que voc me mostrou essa foto?
      minha bisav. Estava guardada no lbum da minha av.
    Clarice estava to envergonhada que nem tinha coragem de falar. Acontecera o seguinte: depois da minha briga, Clarice ficou muito chateada. Conversou com a me, ela foi irredutvel. No queria Srgio na piscina, de jeito nenhum. Um domingo, quando foi visitar a av, passou o dia quieta, sem alegria nenhuma. A av estranhou. Perguntou o que estava acontecendo. Clarice contou toda a histria da piscina. Da proibio, porque Srgio era preto. A av abanou a cabea.
    	Sua me no tem jeito. Como pode ser racista, se tem sangue negro tambm?
    Foi ento que Clarice descobriu. Ela, a av, era filha de me mulata. A me de sua me, trisav de Clarice, era escrava. Tivera uma filha com o dono das terras onde vivia.
    	Sou filha dessa filha  disse a av.  A nossa cor foi clareando com as geraes, porque eu casei com um italiano. Mas  por causa dessa bisav mulata que voc tem essa cor moreninha e esses cabelos cacheados. J notou tambm como seus lbios so grossos, bem desenhados?
    Clarice correu para o espelho. Agora que a av dissera, percebeu que vrios de seus traos lembravam os dos negros. Eram apenas mesclados com os dos brancos.
     Mas eu adoro meus cabelos, e todo mundo diz que minha boca  linda!  surpreendeu-se.  Eu devia agradecer minha bisav!
     No sei como sua me pode proibir o garoto de ir  piscina  reclamou a av de Clarice.   uma atitude muito feia. Ser que ela tem vergonha da prpria famlia?
    A av conversou muito com Clarice. Explicou que a maior parte das famlias brasileiras tem um antepassado negro, embora muitas neguem isso. Segundo sabia, dependendo dos casamentos entre famlias,  bem possvel que marido e mulher brancos tenham um filho com traos mulatos.
    	Muita gente descende de negros! Alguns esquecem de suas origens. Mas sua me, no! Ela sabe muito bem! Que ingrata!
    Verdade. A me de Clarice passara a infncia nos braos dessa av mulata. Comera o doce de abbora que ela fazia to bem. Adulta, nunca quis apresentar a av ao noivo to branquinho.
    	Uma pessoa deve se orgulhar de quem   disse a av.  Voc acha que ela seria to bonita se no tivesse herdado certos traos? Os mesmos que ela passou pra voc?
    Quando descobriu tudo sobre a bisav mulata, Clarice ficou at magoada com a me. No conseguia entender seu modo de ser. Fez questo de levar a foto da bisav, filha de escrava. Foi para casa e mostrou. Joyce no quis acreditar, nem mesmo vendo a foto. A me ficou brava. No queria falar sobre o assunto.
 Voc j notou como o cabelo da Joyce  crespinho?
 Puxa,  verdade!  respondi.
    Eu estava completamente surpreso. Primeiro, pela histria toda. Segundo, pela atitude de Clarice. Que novidade!
    	Eu pensei muito, Leo. No quero ser como a minha me. Eu quero ter orgulho de mim mesma!
    A ela me olhou bem nos olhos, como fazem as atrizes de novelas quando vo falar uma coisa muito importante, e disse:
	Eu quero ser sua amiga, Leo. Sua e do Srgio. Nem sei o que me deu na cabea. Estendi as mos,
toquei seu rosto, fiz um carinho. Ela me fitou, surpreendida.
Puxei sua cabea. Dei um beijo em seus lbios. Ela me beijou um instante. Em seguida, deu um gritinho e correu, rindo sem parar. Antes que fosse embora, gritei:
	Volta amanh!
    Clarice gritou, ainda rindo, no sei se de vergonha ou de alegria.
	Amanh!
    Dei um pulo! Meu corao quase saiu pela boca de tanta felicidade.
    Por incrvel que parea, ainda no cheguei ao fim da histria.
    Um ms depois de Srgio ter contado tudo, um homem apareceu na minha casa. Era alto, forte. Negro.
    Quando entrei com Srgio, ele estava na sala com mame e papai. Conversavam, riam. Mas, quando viu meu irmo, levantou-se emocionado:
	Srgio!
    Srgio nem reconheceu o homem, pois no se viam h muito tempo.
	Sou seu pai.
    Os dois se abraaram. Senti um aperto no corao. Ser que eu ia perder meu irmo, agora que estvamos nos dando to bem?
    O homem explicou. Depois de muito tempo, fora visitar a famlia. Descobriu que Edna tinha falecido e conseguiu nosso endereo com a vizinha.
    	Fui muito irresponsvel. Desapareci todos esses anos.
    O pai de Srgio fora viver no exterior, trabalhando numa companhia que fazia estradas nos lugares mais distantes do mundo. Agora estava contratado para um emprego na frica.
    	Depois que me separei, consegui terminar meu curso de Engenharia. Queria comear uma vida nova. Sei que estava errado, no se abandona um filho dessa maneira. Espero que voc j tenha idade para entender, Srgio. Vamos ser amigos, meu filho?
    No tinha se casado novamente, pois vivia sempre mudando de pas. Morava nas vilas construdas pelas empresas, perto de obras gigantescas de concreto.
     Escrevi para Edna muitas vezes, mas ela nunca respondeu. Se eu soubesse da situao, teria ajudado.
     Minha irm nunca quis depender de ningum  explicou mame.
    Agora ele estava disposto a levar o filho com ele. Explicou que talvez fosse difcil para ele se acostumar a mudar de pas tantas vezes. Mas existiam escolas para estrangeiros. Ele faria o mximo para que Srgio fosse feliz.
	Voc vai gostar, garanto!
    Quando ele disse tudo isso senti uma emoo to forte que at fiquei sufocado. No podiam tirar meu irmo de mim!
	No v embora, Srgio!
    No seria justo perder um irmo que fora to duro de conquistar. Todos me olharam surpresos. Ento, Srgio respondeu:
     Eu no posso ir, pai. No posso deixar meu irmo sozinho.
    Ns dois nos abraamos, bem forte. Notei que mame tinha lgrimas nos olhos.
    O pai de Srgio pensou, pensou, e acabou concordando. Com seu estilo de vida, seria muito difcil criar um filho. Para estudar, talvez Srgio tivesse que viver longe do pai, num colgio interno. A soluo era simples: continuar vivendo com a gente. Claro que no seria mais possvel adot-lo. Srgio continuaria com o sobrenome do pai, mas na prtica seria como meu irmo. O pai viria visitar o filho duas vezes por ano, ou sempre que estivesse no Brasil. Enviaria uma mesada para pagar a escola de Srgio. E nos fez uma promessa: no fim do ano, levaria Srgio e a mim para conhecer a frica, onde estaria trabalhando. (No nego. Estou torcendo pelas frias!)
    Tudo foi resolvido definitivamente. Srgio vai morar para sempre conosco, como o irmo que sempre quis.
    E Clarice? Bem, estamos juntos at hoje. Todo dia brigo por causa do chiclete, mas no adianta. Seus lbios sempre tm gosto de hortel, morango ou tutti-frutti. No fundo, acho que se um dia ela no mascar nenhum, vou estranhar bastante. Tambm no quero brigar muito, no. Acho que estou apaixonado. Antes, eu at gostava de me fazer de difcil. Agora morro de medo de brigar para sempre. Ah, como a vida  complicada!
E o Srgio, ficou sozinho?
    Coisa nenhuma. De umas semanas pra c, anda saindo com a Nice. Mas disso vocs j devem ter desconfiado. Eles estavam de olho um no outro desde que se conheceram. O pai da Nice arrumou emprego, e ela j no gasta tanto tempo ajudando a me com as gelias. Srgio no quis me contar, mas ela revelou: neste sbado, vo ao cinema juntos. Nice est resolvida, e me confessou:
     Se o Srgio no comear o namoro, mordo a orelha dele!
    Sei que foi difcil para mim, e tambm para ele. Mas valeu, ah, se valeu! Agora tenho um irmo, como sempre sonhei.
    Um irmo de outra cor de pele, que me fez descobrir muitas coisas importantes.
Um irmo que est no meu corao!

AUTOR E OBRA

        Assim como a maior parte dos brasileiros, cresci ouvindo falar que, no Brasil, no existe preconceito racial. Mais tarde, quando viajei aos Estados Unidos, pude comprovar como l  difcil o relacionamento entre brancos e negros. Somente com o decorrer dos anos, descobri como no Brasil, porm, o preconceito existe, sim. S que  disfarado. No  como nos Estados Unidos, onde as pessoas falam claramente o que pensam. Aqui disfaram, mas fazem piadas sobre os negros. Comentrios maldosos. Volta e meia, h um escndalo no jornal, porque algum negro foi proibido de usar o elevador de um prdio ou coisa assim. Temos uma lei que probe a discriminao. Mas ela  violada todos os dias.
        Quando resolvi escrever este livro, pensei muito sobre a questo do negro no Brasil. E cheguei a uma concluso: o preconceito tambm  disfarado porque a maior parte da populao negra  pobre. To pobre que seus filhos tm menos acesso a escolas, universidades e cursos profissionalizantes. Ou seja: se algum  criado na pobreza absoluta, sem estudo, dificilmente ter chance de melhorar de vida quando crescer. E um crculo vicioso. Por isso tantas crianas negras e mulatas esto nas ruas. No que no existam meninos brancos abandonados. Mas a grande maioria que vive nas ruas  composta de negros e mulatos. Assim, o preconceito  cor se confunde tambm com o preconceito  pobreza. Ou voc no sabia que muita gente tem preconceito contra pobres?
        A situao das crianas de rua e o preconceito racial so problemas graves, que dependem de mais educao e melhor qualidade de vida para toda a populao. Mas ningum constri uma casa sem o primeiro tijolo. Acredito que, com Irmo negro, todos ns poderemos pensar sobre o problema. Para os leitores brancos, ser a oportunidade de refletir sobre a realidade que nos cerca. Para os negros e mulatos, a oportunidade de encarar mais de frente o preconceito, e de descobrir novas formas de derrub-lo. Resta tambm uma reflexo importante: o que  o povo brasileiro? Somos formados por todas as raas. Quem hoje demonstra uma atitude preconceituosa talvez tenha uma av negra, um bisav escravo.
        Ao escrever Irmo negro, tambm quis lembrar que somos todos irmos. E que o mundo ser melhor quando tivermos todos uma grande relao fraternal.

Walcyr Carrasco




DADOS BIOGRFICOS
  Walcyr Carrasco nasceu em 1951, em Bernardino de Campos, estado de So Paulo. Fez Faculdade de Jornalismo na Universidade de So Paulo e trabalhou em vrias revistas e jornais importantes. Alm de livros infanto-juvenis, escreve tambm teatro, tanto infanto-juvenil, como a premiada adaptao de Peter Pan, quanto adulto, entre elas a tambm premiada xtase. E tambm roteirista de televiso, tendo assinado novelas como Xica da Silva, O Cravo e a Rosa e A Padroeira, todas premiadas, e com grande sucesso no pas e no exterior. Tambm  autor da adaptao para televiso de O Stio do Picapau Amarelo, considerado o melhor programa de televiso infantil do pas.

Este livro foi:
 sugerido como leitura pelo Grupo Informal de Apoio  Adoo  SP
 sugerido como leitura pelo Grupo Aconchego de Apoio  Adoo  SP
 escolhido como tema de leitura e debate no Projeto de Cidadania realizado em comunidades carentes do Rio de Janeiro em 1998

























